A versão online da edição de inverno da Revista Riviera já está disponivel.
A última vez que assisti a um balé foi em 2022, em um teatro aberto na Acrópole de Atenas. Era uma montagem moderna de Carmen, com Natalia Osipova, uma das grandes bailarinas clássicas da atualidade. Entre a música, o cenário e a beleza da interpretação, havia uma atmosfera que parecia suspender, por algumas horas, o ritmo de tudo ao redor. Algumas experiências têm esse efeito: concentram o olhar e nos fazem participar com mais intensidade daquilo que estamos vivendo.
Em tempos de atenção disputada por todos os lados, estar presente virou quase um desafio. Nesta edição, partimos dessa ideia para olhar para experiências que ganham outro sentido quando são vividas com mais intenção. A começar, é claro, pelo balé. A comemoração dos 250 anos do Bolshoi, uma das principais companhias de balé do mundo, nos guia por uma história que atravessa séculos combinando técnica, repertório e capacidade de se transformar para se manter Sempre em cena.
Se o balé parece suspender o ritmo de tudo ao redor por algumas horas, a fotografia é capaz de fixar instantes que passariam sem deixar vestígio. Nos últimos Dois séculos de imagens, ela foi da vista quase fantasmática registrada por Joseph Nicéphore Niépce, em 1826, às fotos que hoje tiramos, editamos e compartilhamos em segundos pelo celular. Mais do que registros, as imagens se tornaram parte da própria experiência.
Nem tudo, porém, cabe no ritmo do nosso controle. De auroras boreais a ondas gigantes e cerejeiras em flor, essas Forças da natureza atraem viajantes aos mais diferentes cantos do mundo. Elas dependem de clima, geografia e, às vezes, sorte — e nos lembram que algumas das experiências mais marcantes da vida nascem menos da pressa de chegar e mais da disponibilidade para simplesmente estar.
Outros acontecimentos fazem países inteiros parar diante de algo tão simples quanto uma bola. Com O mundo em campo, a cada quatro anos a Copa do Mundo reorganiza agendas, reúne famílias e amigos e transforma partidas de futebol em memórias compartilhadas. O torneio que começou com 13 seleções no Uruguai, em 1930, virou um ritual global em que o presente se concentra em dois tempos de 45 minutos, mais acréscimos. Ainda Fora do expediente, hobbies abrem espaço para presença e prazer em rotinas marcadas por cobranças — sem virar mais uma tarefa na lista.
À mesa, a presença ganha outro ritual. Drinques preparados com infusões, cordiais, especiarias e novas técnicas mostram que Um brinde sem álcool não só é possível como está se tornando uma categoria própria. Afinal, mais importante do que aquilo que vai no copo são os encontros que ele ajuda a marcar.
Estar presente na vida em sociedade também passa pelo acesso a direitos. Em Direitos em construção, revisitamos dois séculos de conquistas civis, políticas e sociais das mulheres, do sufragismo às políticas contemporâneas. De Bertha Lutz, figura central na conquista do voto feminino no Brasil, a Simone de Beauvoir, referência do pensamento feminista contemporâneo, a reportagem mostra como essas mudanças ampliaram possibilidades de participação, autonomia e escolha ao longo do tempo.
No fundo, todas essas histórias falam de maneiras diferentes de estar no mundo. A presença não é apenas uma pausa no ritmo acelerado dos dias. É uma forma de dar sentido ao que vivemos, ao que escolhemos preservar e ao que ainda queremos construir.
Boa leitura!
Beatriz Almeida
Editora executiva da Revista Riviera